quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Trabalho de aluno apresentado na ANPUH

Segue abaixo a comunicação que Ronald Lopes de Oliveira, graduando de História da UNIRIO do Polo de Cantagalo, apresentou no último Encontro Regional da ANPUH - Associação Nacional dos Professores Universitários de História, realizado em julho de 2012 na cidade de São Gonçalo/RJ. Ele desenvolve sua pesquisa no âmbito do Centro de Memória, Pesquisa e Documentação Histórica de Cantagalo, sob orientação da professora-tutora Conceição Franco.

Aproveitamos para informar aos alunos que os interessados em publicar seus trabalhos no nosso blog devem enviá-los para o e-mail coordenacaohistoriacantagalo@hotmail.com. Ele será avaliado pela equipe do blog e poderá ou não ser publicado.
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O processo de implantação do Luteranismo no Brasil: o caso da região de Nova Friburgo (1824 a 1857)
 Ronald Lopes de Oliveira
A presente comunicação é parte inicial da pesquisa a ser desenvolvida como requisitos necessários para realização do trabalho de final do Curso de Licenciatura em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/ UNIRIO. Esse estudo tem a religião e a religiosidade protestante como tema e a História Cultural como uma perspectiva de análise. Desta forma, o objetivo desta investigação será o de analisar o processo de ocupação, constituição e organização do espaço social, administrativo e religioso a partir do estabelecimento da Igreja Luterana no Brasil, na primeira metade do século XIX. Neste sentido, procurarei entender como este protestantismo luterano se expressou no Brasil no período joanino e posteriormente no início do Império Brasileiro, a partir da instalação da colônia alemã em Nova Friburgo/RJ em 1824.
Dois motivos instigaram o interesse por esta temática: o meu primeiro intuito ocorreu quando, após várias reflexões, resolvi fazer uma homenagem ao bombeiro militar Victor Lembo, que durante o resgate das vítimas daquela que foi considerada como a maior catástrofe natural do Brasil, ocorrida em 11 de janeiro de 2011, veio a falecer em serviço, tentando resgatar o Sr. Wellington da Silva e seu filho Nicolas com três meses de idade que foram soterrados vivos. Victor Lembo, um herói anônimo que fora sepultado sem honrarias militares no Cemitério dos Alemães, em Nova Friburgo, foi ali enterrado porque os seus parentes tinham vínculos com a comunidade alemã que lá chegou no início do século XIX.  A minha segunda motivação refere-se à questão de caráter social e religioso que, no decorrer do curso de História, me levou com outros dois amigos de classe a buscarmos juntos o estímulo da nossa pesquisa acadêmica. 
Assim sendo, o nosso primeiro contato com a Igreja Luterana foi através do seu cemitério, o que, aliás, também marcaria o ponto de partida para a minha pesquisa. Logo no início da nossa investigação pudemos corroborar o fato de que a Igreja Luterana de Nova Friburgo foi a primeira Igreja Protestante da América Latina, e que o seu estabelecimento acorreu antes mesmo da instituição do primeiro templo católico. Este fato tornou-se ainda mais instigante quando identificamos que isto ocorreu em uma colônia destinada aos imigrantes suíços e católicos. Todavia, é neste contexto que pretendo estabelecer o cerne da minha inquirição: como seria possível que uma igreja protestante viesse a ser erguida antes mesmo do estabelecimento da igreja católica em Nova Friburgo e consequentemente no Brasil? Nesta perspectiva, pretendo ainda verificar de que forma este acontecimento se efetivou em plena colônia de suíços católicos, e cujo catolicismo era a religião oficial do jovem Império Brasileiro. Para tal, a minha perspectiva de análise visa compreender o processo de ocupação, constituição e a organização do espaço administrativo, social e religioso a partir da instituição da Igreja Luterana e como o protestantismo se expressou no Brasil em especial em Nova Friburgo durante a primeira metade do século XIX.
Nos seus primórdios, Nova Friburgo era uma fazenda localizada na extensa região das Minas de Cantagalo, também identificada como Sertões do leste ou de Macacu, situada no Centro Norte Fluminense cuja ocupação ocorreu por volta da segunda metade do século XVIII, em função da extração clandestina do ouro. Atualmente, o município de Nova Friburgo insere-se na região serrana do estado do Rio de Janeiro. No início do século XIX, o território friburguense foi palco de dois fluxos imigratórios, a saber: em 1819 ocorreu a imigração suíça e em 1824, a região recebeu colonos protestantes da Alemanha.
É de concordância entre os historiadores e pesquisadores que o incentivo do Estado brasileiro à imigração suíça e germânica era um fator das políticas, tanto de D. João VI quanto do Imperador D. Pedro I.  Neste sentido, Martin Dreher afirma que “é necessário apoiar o desenvolvimento da agricultura, é absolutamente necessário facilitar a travessia e fomentar o aliciamento de bons colonos que aumentem o numero de braços, dos quais necessitamos (DREHER, 2003: 29). Desta forma, pode-se acrescer também que havia uma sugestão da Imperatriz Leopoldina, filha do Imperador Francisco I da Áustria, de que o Brasil pudesse “importar” alguns imigrantes alemães. No contexto da política joanina e posteriormente na visão do imperador Pedro I, era inadequado convidar imigrantes das nações possuidoras de antigas colônias e que, neste caso, estavam se referindo às nações europeias França, Holanda, Inglaterra e Espanha.
Entretanto, já com a vinda da Família Real, em 1808, e com justificados enfraquecimentos do antigo Pacto Colonial e do exclusivismo comercial na colônia portuguesa da América entre os anos de 1808 e 1821, e tendo o Brasil se tornado o centro administrativo da Coroa Portuguesa fatos que provocaram algumas desconstruções ideológicas e das políticas econômicas vigentes até então na colônia, o que acabou contribuindo de certa forma para a abertura política, econômica, cultural e religiosa. Foi neste contexto histórico que em 16 de maio de 1818, o príncipe regente D. João VI, autorizou, através de decreto, que o agente Sebastião Nicolau Gachet que era natural do Cantão de Friburg - na Suíça- estabelecesse uma colônia de cem famílias suíças na Fazenda do Morro Queimado em Cantagalo, e atualmente Nova Friburgo. A partir de então foi nomeado o Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiros, também conhecido como Monsenhor Miranda, como inspetor para administrar a colônia que nascia.  De acordo com o relato do viajante Joseph Hecht, que acompanhou a primeira leva de imigrantes oriundos da Suíça, a vila de Nova Friburgo foi criada pelo Alvará de 03 de janeiro de1820, assentando cerca de 260 famílias suíças nas áreas próximas à confluência dos Rios Cônego, Santo Antônio e o Bengala, lugar onde hoje se localiza a Praça Getúlio Vargas também conhecida como Praça do Pelourinho (HECHT, 2009).
Com referência ao recrutamento de imigrantes alemães, o governo brasileiro enviou diversos agentes à Alemanha. O mais referendado dentre eles foi o major Geog Anton Von Schaeffer que por sua vez tinha a missão de reunir e contratar o maior número de imigrantes alemães para as colônias de Leopoldina e Frankenthal, estes já estabelecidos na então Província da Bahia (ao Sul) localizada às margens dos rios Caravelas e Viçosa desde 1816.  A maioria dos colonos, cerca de 110 agricultores, provinha de Kirnbecherbach, Oberamt Weissenheim em Hessen-Hamburgo situada no sudeste da Alemanha e foram também enviados a Nova Friburgo. Mesmo estando no início da pesquisa é possível defender a ideia de que o motivo deste deslocamento interno de colonos alemães teve sua motivação no fato de a colonização suíça não ter se efetivado na sua totalidade em Nova Friburgo, isto pela razão de aos suíços não ter se acostumado ao clima da região, e foram forçados a migrarem para área central de Cantagalo e Macaé.
Assim sendo, entre os dias 3 e 4 de maio de 1824, cerca de 80 famílias de alemães protestantes – sob a orientação do pastor Friedrich Oswald Sauerbronn – e recepcionadas pelo Monsenhor Miranda, inspetor da colônia, chegaram a Nova Friburgo. Segundo Martin Nicoulin, uma parte deste grupo havia partido também da Europa no navio Argus, no dia 19 de julho de 1823, chegando ao Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 1824. A outra parte partiu no navio Carolina, em 18 de dezembro de 1823, chegando ao Rio de Janeiro em 15 de abril de 1824. Este segundo grupo oriundo da Alemanha pode ter se estabelecido em São Leopoldo no Rio Grande do Sul.
Assim como os suíços, os alemães também sentiram a falta de infraestrutura para acolhê-los. As terras que lhes foram destinadas eram ruins e não havia estradas para atender as suas necessidades básicas e se encontravam a uma distancia de 4 dias  à cavalo da Corte. Assim, um grande número de colonos acabou retornando para a capital do Império ou deslocando-se para outras regiões consideradas mais férteis, como já foi referendado anteriormente, pois tanto os suíços quanto os alemães vieram para o Brasil com o objetivo de cultivar a lavoura cafeeira em plena expansão no Brasil.
Somando-se a isso, um acontecimento em especial, marcaria intensamente a chegada dos alemães em Nova Friburgo. Refiro-me à morte do filho do pastor luterano Sauebronn e líder dos colonos vindos da Alemanha, fato que agora passo a narrar. Um mês após a chegada destes imigrantes, em 13 de maio de 1824, às oito horas da noite faleceu Peter Leopold, filho do pastor protestante Friedrich  Sauerbronn. De acordo com a certidão de óbito Peter Leopold, nasceu no dia 17 de novembro de 1823, durante a viagem para a América, perto das ilhas de Cabo Verde e em consequência deste parto a sua mãe Charlotte veio a falecer. Tal acontecimento marcaria o primeiro ato de intolerância religiosa entre um membro da Igreja Católica e um pastor protestante na nova colônia Friburguense.  O Monsenhor Miranda, que possivelmente tenha sido influenciado pelo padre Joyer que era o pároco de Nova Friburgo e que veio junto com os imigrantes suíços, negara sepultamento no único cemitério ali existente, pois o mesmo era destinado só  para o enterramentos dos colonos católicos. Tendo em vista a negação do pároco, o pastor Sauerbronn escolheu um lugar em uma área distante do cemitério católico e no dia seguinte o sepultamento de Peter Leopold foi realizado, às 16 horas no cemitério recém instalado para esse fim, sendo o primeiro a ser ali sepultado e o próprio pai oficiou a cerimônia de enterramento do seu filho (Registro do primeiro óbito protestante em Nova Friburgo. 13/05/1824)
Para além da problemática dos enterramentos de não católicos e na tentativa de compreender as tensões e conflitos das diferentes vertentes das religiões cristãs ocorridos no Brasil no século XIX, é importante ressaltar que foi neste contexto que também foi criada uma das primeiras Igrejas Protestantes no Brasil, antes mesmo da construção do templo católico na Colônia de Nova Friburgo, erguido de pau a pique pelo próprio Sauerbronn, que de acordo com J. E. Schlupp
"em 1827, construíram o seu primeiro Templo, na então 'Praça do Pelourinho', mas as autoridades locais mandaram demolir o mesmo. Somente em 1857 foi possível construir uma igreja perto do local da anterior. Obedecendo as leis vigentes, não tinha torre, nem sinos e nem nada que a diferenciasse de outras casas”.

   Por conseguinte, na nova conjectura do recém-criado Estado brasileiro, é importante ressaltar que apesar de a primeira Constituição do Império, promulgada em 1824, afirmar que a religião Católica Apostólica Romana continuaria a ser a religião do Brasil, no seu art. 5º. ela ressalvava também que “todas as outras religiões serão permitidas com o seu culto doméstico ou particular em casa para isso destinadas, sem a forma alguma exterior de templo". Igualmente, no Art. 179 § 5º. constava que "Ninguém pode ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeite a do estado e não ofenda a moral pública".



Entretanto, consultando o relato do Pastor Sauerbronn enviado à comunidade de Becherbach em 1824, pude constatar a seguinte informação:
“Os colonos chegaram a uma vasta área pertencente ao Imperador, chamada Armação e eu consegui com minha família, uma casa excelente, com livre alimentação, junto a Monsenhor Miranda, Inspetor da Colonização Estrangeira ocupando uma posição de Ministro. Ficamos três meses e meio por conta do Imperador e todos em "Dulce" júbilo. O Imperador e a Imperatriz nos visitaram várias vezes; eram muito condescendentes e conversavam com cada criança. Dia 25 de abril, fomos transportados por conta ainda do Imperador para Nova Friburgo, 40 horas distante do Rio de Janeiro. O lugar tem o tamanho aproximado de Glanddernheim e consta de prédios pertencentes ao Imperador, prédios de um andar com telhados muito bons, quatro quartos cada um” (Relato do Pastor Sauerbronn enviado à comunidade de Becherbach  em 1824).
Com base no relato do pastor acima mencionado, é possível constatar o grau de complexidade que envolvia as relações do Imperador d. Pedro I e os países envolvidos na política de Imigrações do Império Brasileiro no primeiro quartel do século XIX, em especial a Alemanha, tendo em vista que a Imperatriz Leopoldina era filha do Imperador Francisco I da Áustria. Neste sentido, este relato permite, no mínimo, fazer uma inferência a qual poderá conduzir uma análise sobre a composição da Casa de Bragança e as suas relações com os protestantes alemães, porém essa ilação será tratada de forma mais apurada no decorrer da minha pesquisa monográfica.
E será justamente dentro desta perspectiva de análise que pretendo conduzir o estudo da temática da religiosidade protestante no Brasil a partir da instalação da Igreja Luterana em Nova Friburgo no processo de assentamento desses colonos em 1824 e, como resultado desta pesquisa, contribuir para a preservação da identidade cultural no âmbito da história regional. Além disso, pretendo verificar as especificidades dos estatutos político e jurídicos que definiriam a construção de igrejas em terras brasileiras, observando a sua relação com a instituição da igreja luterana no Brasil e a sua ligação com o processo de formação da sociedade friburguense.

FONTES

ACERVO DA IGREJA LUTERANA DE NOVA FRIBURGO/RJ.
- Relato do Pastor Sauerbronn enviado à comunidade de Becherbach  em 1824
- Registro do primeiro óbito protestante em Nova Friburgo. 13/05/1824

-Sínodo Evangélico do Brasil Central. Boletim Informativo, n.16. Rio de Janeiro, 1º/06/1964. (AHIECLB – SBC 20/1)
   
REFERÊNCIAS

ARAÚJO, João Raimundo; MAYER, Jorge Miguel (org). Teia Serrana: formação histórica de Nova Friburgo [et all]. Rio de Janeiro: Editora Ao Livro Técnico. 2003

DREHER, Martin. Igreja e Germanidade. São Leopoldo, Rio Grande do Sul: Editora Sinodal. 2003.
FISHER, Carlos Rodolpho. História em quatro tempos. Rio de Janeiro: Publicações Arp,1986

HECHT, Joseph. A imigração suíça no Brasil 1819-1823. Trad. Armindo L. Muller. Independente. Rio de janeiro: 2009

NICOULIN, Martin. A Gênese de Nova Friburgo. Fundação Biblioteca Nacional, 1995
Jornal Serrano Online - São Pedro da Serra, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Brasil acessado em 20/08/2010 http://www.jornalserranonline.com.br/noticia-lumiar-sao-pedro-da-serra-003.html
SCHL.[UPP], J.[ohannes]. Resumo da história da Comunidade Evangélica Lutherana de Nova Friburgo. In: BEGRICH, Martin (Hrgb.) 1912 1962; Em Comemoração do 50.° Aniversário do Sínodo Evangélico do Brasil Central fundado em 28/30 de junho de 1912. São Paulo: Hugo Grobel, [1962].
SCHORODER, Ferdinand. Brasilien und Winttenberg, p. 33 apud DREHER, Martin. Igreja e Germanidade. São Leopoldo, Rio Grande do Sul: Editora Sinodal. 20

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