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O processo de implantação do Luteranismo no Brasil:
o caso da região de Nova Friburgo (1824 a 1857)
Ronald Lopes de Oliveira
A
presente comunicação é parte inicial da pesquisa a ser desenvolvida como
requisitos necessários para realização do trabalho de final do Curso de
Licenciatura em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/
UNIRIO. Esse estudo tem a religião e a religiosidade protestante como tema e a
História Cultural como uma perspectiva de análise. Desta forma, o objetivo
desta investigação será o de analisar o processo de ocupação, constituição e
organização do espaço social, administrativo e religioso a partir do
estabelecimento da Igreja Luterana no Brasil, na primeira metade do século XIX.
Neste sentido, procurarei entender como este protestantismo luterano se
expressou no Brasil no período joanino e posteriormente no início do Império
Brasileiro, a partir da instalação da colônia alemã em Nova Friburgo/RJ em
1824.
Dois
motivos instigaram o interesse por esta temática: o meu primeiro intuito
ocorreu quando, após várias reflexões, resolvi fazer uma homenagem ao bombeiro
militar Victor Lembo, que durante o resgate das vítimas daquela que foi
considerada como a maior catástrofe natural do Brasil, ocorrida em 11 de
janeiro de 2011, veio a falecer em serviço, tentando resgatar o Sr. Wellington
da Silva e seu filho Nicolas com três meses de idade que foram soterrados
vivos. Victor Lembo, um herói anônimo que fora sepultado sem honrarias
militares no Cemitério dos Alemães, em Nova Friburgo, foi ali enterrado porque
os seus parentes tinham vínculos com a comunidade alemã que lá chegou no início
do século XIX. A minha segunda motivação
refere-se à questão de caráter social e religioso que, no decorrer do curso de
História, me levou com outros dois amigos de classe a buscarmos juntos o
estímulo da nossa pesquisa acadêmica.
Assim
sendo, o nosso primeiro contato com a Igreja Luterana foi através do seu
cemitério, o que, aliás, também marcaria o ponto de partida para a minha
pesquisa. Logo no início da nossa investigação pudemos corroborar o fato de que
a Igreja Luterana de Nova Friburgo foi a primeira Igreja Protestante da América
Latina, e que o seu estabelecimento acorreu antes mesmo da instituição do
primeiro templo católico. Este fato tornou-se ainda mais instigante quando
identificamos que isto ocorreu em uma colônia destinada aos imigrantes suíços e
católicos. Todavia, é neste contexto que pretendo estabelecer o cerne da minha
inquirição: como seria possível que uma igreja protestante viesse a ser erguida
antes mesmo do estabelecimento da igreja católica em Nova Friburgo e consequentemente
no Brasil? Nesta perspectiva, pretendo ainda verificar de que forma este
acontecimento se efetivou em plena colônia de suíços católicos, e cujo
catolicismo era a religião oficial do jovem Império Brasileiro. Para tal, a
minha perspectiva de análise visa compreender o processo de ocupação,
constituição e a organização do espaço administrativo, social e religioso a
partir da instituição da Igreja Luterana e como o protestantismo se expressou
no Brasil em especial em Nova Friburgo durante a primeira metade do século XIX.
Nos
seus primórdios, Nova Friburgo era uma fazenda localizada na extensa região das
Minas de Cantagalo, também identificada como Sertões do leste ou de Macacu,
situada no Centro Norte Fluminense cuja ocupação ocorreu por volta da segunda metade do século
XVIII, em função da extração clandestina do ouro. Atualmente, o município de
Nova Friburgo insere-se na região serrana do estado do Rio de Janeiro. No
início do século XIX, o território friburguense foi palco de dois fluxos
imigratórios, a saber: em 1819 ocorreu a imigração suíça e em 1824, a região
recebeu colonos protestantes da Alemanha.
É
de concordância entre os historiadores e pesquisadores que o incentivo do
Estado brasileiro à imigração suíça e germânica era um fator das políticas, tanto
de D. João VI quanto do Imperador D. Pedro I.
Neste sentido, Martin Dreher afirma que “é necessário
apoiar o desenvolvimento da agricultura, é absolutamente necessário facilitar a
travessia e fomentar o aliciamento de bons colonos que aumentem o numero de
braços, dos quais necessitamos (DREHER, 2003: 29). Desta forma, pode-se acrescer também que havia uma
sugestão da Imperatriz Leopoldina, filha do Imperador Francisco I da Áustria,
de que o Brasil pudesse “importar”
alguns imigrantes alemães. No contexto da política joanina e posteriormente na
visão do imperador Pedro I, era inadequado convidar imigrantes das nações
possuidoras de antigas colônias e que, neste caso, estavam se referindo às
nações europeias França, Holanda, Inglaterra e Espanha.
Entretanto, já com a vinda da Família Real,
em 1808, e com justificados enfraquecimentos do antigo Pacto Colonial e do
exclusivismo comercial na colônia portuguesa da América entre os anos de 1808 e
1821, e tendo o Brasil se tornado o centro administrativo da Coroa Portuguesa
fatos que provocaram algumas desconstruções ideológicas e das políticas
econômicas vigentes até então na colônia, o que acabou contribuindo de certa
forma para a abertura política, econômica, cultural e religiosa. Foi neste
contexto histórico que em 16 de maio de 1818, o príncipe regente D. João VI,
autorizou, através de decreto, que o agente
Sebastião Nicolau Gachet que era natural do Cantão de Friburg - na Suíça- estabelecesse uma colônia de cem famílias
suíças na Fazenda do Morro Queimado em Cantagalo, e atualmente Nova Friburgo. A
partir de então foi nomeado o Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiros,
também conhecido como Monsenhor Miranda, como inspetor para administrar a
colônia que nascia. De acordo com o
relato do viajante Joseph Hecht, que acompanhou a primeira leva de imigrantes
oriundos da Suíça, a vila de Nova Friburgo foi criada pelo Alvará de 03 de
janeiro de1820, assentando cerca de 260 famílias suíças nas áreas próximas à
confluência dos Rios Cônego, Santo Antônio e o Bengala, lugar onde hoje se
localiza a Praça Getúlio Vargas também conhecida como Praça do Pelourinho
(HECHT, 2009).
Com referência ao recrutamento de
imigrantes alemães, o governo brasileiro enviou diversos agentes à Alemanha. O
mais referendado dentre eles foi o major Geog Anton Von Schaeffer que por sua
vez tinha a missão de reunir e contratar o maior número de imigrantes alemães
para as colônias de Leopoldina e Frankenthal, estes já estabelecidos na então
Província da Bahia (ao Sul) localizada às margens dos rios Caravelas e Viçosa
desde 1816. A maioria dos colonos, cerca
de 110 agricultores, provinha
de Kirnbecherbach, Oberamt Weissenheim em Hessen-Hamburgo situada no sudeste da
Alemanha e foram também enviados a Nova Friburgo.
Mesmo estando no início da pesquisa é possível defender a ideia de que o motivo
deste deslocamento interno de colonos alemães teve sua motivação no fato de a
colonização suíça não ter se efetivado na sua totalidade em Nova Friburgo, isto
pela razão de aos suíços não ter se acostumado ao clima da região, e foram
forçados a migrarem para área central de Cantagalo e Macaé.
Assim sendo, entre os dias 3 e 4 de maio de
1824, cerca de 80 famílias de alemães protestantes – sob a orientação do pastor
Friedrich Oswald Sauerbronn – e recepcionadas pelo Monsenhor Miranda, inspetor
da colônia, chegaram a Nova Friburgo. Segundo Martin Nicoulin, uma parte deste grupo havia partido
também da Europa no navio Argus, no dia 19 de julho de 1823, chegando ao Rio de
Janeiro em 14 de janeiro de 1824. A outra parte partiu no navio Carolina, em 18
de dezembro de 1823, chegando ao Rio de Janeiro em 15 de abril de 1824. Este
segundo grupo oriundo da Alemanha pode ter se estabelecido em São Leopoldo no
Rio Grande do Sul.
Assim como os suíços, os
alemães também sentiram a falta de infraestrutura para acolhê-los. As terras
que lhes foram destinadas eram ruins e não havia estradas para atender as suas
necessidades básicas e se encontravam a uma distancia de 4 dias à cavalo da Corte. Assim, um grande número de
colonos acabou retornando para a capital do Império ou deslocando-se para
outras regiões consideradas mais férteis, como já foi referendado
anteriormente, pois tanto os suíços quanto os alemães vieram para o Brasil com
o objetivo de cultivar a lavoura cafeeira em plena expansão no Brasil.
Somando-se a isso, um
acontecimento em especial, marcaria intensamente a chegada dos alemães em Nova
Friburgo. Refiro-me à morte do filho do
pastor luterano Sauebronn e líder dos colonos vindos da Alemanha, fato que
agora passo a narrar. Um mês após a chegada destes imigrantes, em 13 de maio de
1824, às oito horas da noite faleceu Peter Leopold, filho do pastor protestante
Friedrich Sauerbronn. De acordo com a
certidão de óbito Peter Leopold, nasceu no dia 17 de novembro de 1823, durante
a viagem para a América, perto das ilhas de Cabo Verde e em consequência deste
parto a sua mãe Charlotte veio a falecer. Tal acontecimento marcaria o primeiro
ato de intolerância religiosa entre um membro da Igreja Católica e um pastor
protestante na nova colônia Friburguense.
O Monsenhor Miranda, que possivelmente tenha sido influenciado pelo
padre Joyer que era o pároco de Nova Friburgo e que veio junto com os
imigrantes suíços, negara sepultamento no único cemitério ali existente, pois o
mesmo era destinado só para o
enterramentos dos colonos católicos. Tendo em vista a negação do pároco, o
pastor Sauerbronn escolheu um lugar em uma área distante do cemitério católico
e no dia seguinte o sepultamento de Peter Leopold foi realizado, às 16 horas no
cemitério recém instalado para esse fim, sendo o primeiro a ser ali sepultado e
o próprio pai oficiou a cerimônia de enterramento do seu filho (Registro do primeiro óbito protestante em
Nova Friburgo. 13/05/1824)
Para além da problemática dos enterramentos
de não católicos e na tentativa de compreender as tensões e conflitos das
diferentes vertentes das religiões cristãs ocorridos no Brasil no século XIX, é
importante ressaltar que foi neste contexto que também foi criada uma das
primeiras Igrejas Protestantes no Brasil, antes mesmo da construção do templo
católico na Colônia de Nova Friburgo, erguido de pau a pique pelo próprio
Sauerbronn, que de acordo com J.
E. Schlupp
"em 1827, construíram o seu primeiro Templo, na então 'Praça do
Pelourinho', mas as autoridades locais mandaram demolir o mesmo. Somente em
1857 foi possível construir uma igreja perto do local da anterior. Obedecendo
as leis vigentes, não tinha torre, nem sinos e nem nada que a diferenciasse de
outras casas”.
Por conseguinte, na nova conjectura do recém-criado Estado brasileiro, é
importante ressaltar que apesar de a primeira Constituição do Império,
promulgada em 1824, afirmar que a religião Católica Apostólica Romana
continuaria a ser a religião do Brasil, no seu art. 5º. ela ressalvava também
que “todas as outras religiões serão
permitidas com o seu culto doméstico ou particular em casa para isso
destinadas, sem a forma alguma exterior de templo". Igualmente, no
Art. 179 § 5º. constava que "Ninguém
pode ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeite a do estado e
não ofenda a moral pública".
Entretanto, consultando o relato do Pastor
Sauerbronn enviado à comunidade de Becherbach em 1824, pude constatar a
seguinte informação:
“Os colonos
chegaram a uma vasta área pertencente ao Imperador, chamada Armação e eu
consegui com minha família, uma casa excelente, com livre alimentação, junto a
Monsenhor Miranda, Inspetor da Colonização Estrangeira ocupando uma posição de
Ministro. Ficamos três meses e meio por conta do Imperador e todos em
"Dulce" júbilo. O Imperador e a Imperatriz nos visitaram várias
vezes; eram muito condescendentes e conversavam com cada criança. Dia 25 de
abril, fomos transportados por conta ainda do Imperador para Nova Friburgo, 40
horas distante do Rio de Janeiro. O lugar tem o tamanho aproximado de
Glanddernheim e consta de prédios pertencentes ao Imperador, prédios de um
andar com telhados muito bons, quatro quartos cada um” (Relato do Pastor Sauerbronn enviado à comunidade de Becherbach em 1824).
Com base no relato
do pastor acima mencionado, é possível constatar o grau de complexidade que
envolvia as relações do Imperador d. Pedro I e os países envolvidos na política
de Imigrações do Império Brasileiro no primeiro quartel do século XIX, em especial a Alemanha, tendo em vista que a Imperatriz
Leopoldina era filha do Imperador Francisco I da Áustria. Neste sentido, este
relato permite, no mínimo, fazer uma inferência a qual poderá conduzir uma
análise sobre a composição da Casa de Bragança e as suas relações com os
protestantes alemães, porém essa ilação será tratada de forma mais apurada no
decorrer da minha pesquisa monográfica.
E será justamente dentro
desta perspectiva de análise que pretendo conduzir o estudo da temática da
religiosidade protestante no Brasil a partir da instalação da Igreja Luterana
em Nova Friburgo no processo de assentamento desses colonos em 1824 e, como
resultado desta pesquisa, contribuir para a preservação da identidade
cultural no âmbito da história regional. Além disso, pretendo verificar as especificidades dos
estatutos político e jurídicos que definiriam a construção de igrejas em terras
brasileiras, observando a sua relação com a instituição da igreja luterana no
Brasil e a sua ligação com o processo de formação da sociedade friburguense.
FONTES
ACERVO DA IGREJA LUTERANA DE NOVA FRIBURGO/RJ.
- Relato do Pastor Sauerbronn enviado à comunidade de Becherbach em 1824
- Registro do primeiro óbito protestante em Nova Friburgo. 13/05/1824
-Sínodo Evangélico
do Brasil Central. Boletim Informativo, n.16. Rio de
Janeiro, 1º/06/1964. (AHIECLB – SBC 20/1)
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, João
Raimundo; MAYER, Jorge Miguel (org). Teia
Serrana: formação histórica de Nova Friburgo [et all]. Rio de Janeiro:
Editora Ao Livro Técnico. 2003
DREHER,
Martin. Igreja e Germanidade. São Leopoldo, Rio Grande do Sul: Editora Sinodal.
2003.
FISHER, Carlos
Rodolpho. História em quatro tempos. Rio de Janeiro: Publicações Arp,1986
HECHT, Joseph. A imigração suíça no Brasil 1819-1823. Trad. Armindo L.
Muller. Independente. Rio de janeiro: 2009
NICOULIN, Martin. A Gênese de Nova Friburgo. Fundação Biblioteca Nacional, 1995
Jornal Serrano Online - São Pedro da Serra, Nova Friburgo, Rio de
Janeiro, Brasil acessado em 20/08/2010 http://www.jornalserranonline.com.br/noticia-lumiar-sao-pedro-da-serra-003.html
SCHL.[UPP], J.[ohannes]. Resumo da história da Comunidade Evangélica
Lutherana de Nova Friburgo. In: BEGRICH, Martin (Hrgb.) 1912 1962; Em
Comemoração do 50.° Aniversário do Sínodo Evangélico do Brasil Central fundado
em 28/30 de junho de 1912. São Paulo: Hugo Grobel, [1962].
SCHORODER, Ferdinand. Brasilien und Winttenberg, p. 33 apud DREHER,
Martin. Igreja
e Germanidade. São Leopoldo, Rio Grande do Sul: Editora Sinodal. 20
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